Nos últimos meses, a APCM – Associação Antipirataria de Cinema e Música – retirou do ar (ou tentou, pelo menos) alguns sites de legendas de filmes e séries, entre eles o famoso Legendas.tv. A APCM alegava que produção e distribuição de legendas também era caracterizada como crime, mesmo não tendo fins lucrativos. No final das contas, o Legendas.tv voltou ao ar e a poeira baixou. Não me atenho aqui a discutir se o ocorrido com os sites de legendas foi ou não algo legítimo e correto (até porque, acredito que legendas sem prévia autorização dos roteiristas originais é violação dos direitos autorais SIM). Além do mais, isso já é notícia velha. Quero apenas tentar entender porque as empresas produtoras de entretenimento em geral insistem em não ver as ótimas oportunidades de negócio que provém da pirataria. O tempo perdido com a luta antipirataria poderia muito bem ser gasto com uma análise do porque a pirataria se propaga e se mostra tão próspera em países como o Brasil.
A pirataria existe por vários motivos distintos. Tomando apenas o território nacional como base, a péssima distribuição de renda e o difícil acesso a inúmeros materiais que recebem ridículos impostos de importação são só duas da enorme lista de razões pelas quais a indústria pirata funciona por aqui. Porém, independentemente da ilegalidade desta, o atual grau de intensidade da pirataria nacional nos mostra um fato bastante curioso: os consumidores talvez ainda se foquem mais no conteúdo do que é consumido do que em todo o restante.
Quando se opta por adquirir um DVD pirata, por exemplo, toma-se como fator decisivo de compra o preço. Um DVD pirata não vem numa embalagem bonita, não possui uma capa bem impressa. Não tem extras nem outros idiomas talvez. Mas o filme é o mesmo. É exatamente aquilo que eu queria assistir, não difere em nada – em termos de conteúdo – daquele vendido na Fnac ou na Livraria Cultura. Obviamente, a qualidade técnica é imensamente inferior. Mas isso não é levado em conta dado o preço pago.
E é dentro desse quadro que as empresas não percebem o novo comportamento consumidor sugerido. Se o comprador em questão considera o preço o fator de maior relevância, talvez seja preciso repensar o produto que se tem em mãos afim de atingir esse mesmo comprador. Talvez não seja preciso uma embalagem plástica para comportar o DVD. Uma mais simples, de papelão ou algo que o valha, dê conta do recado. Talvez um enorme encarte com fotos e informações não seja necessário. E, portanto, a necessidade de contratar profissionais para a produção desse encarte é limada também (e isso vai contra a minha própria classe de diretores de arte, designers e fotógrafos, mas é um fato comercial que deve ser levado em conta). A pirataria é uma enorme pesquisa de campo gratuita. E as empresas parecem na perceber isso.
Vencer a pirataria? Não creio ser possível. E se não pode vencê-la… pare de brigar junte-se a ela, oras. Legalmente, claro. Não vou citar aqui o já mais do que discutido caso do Radiohead e seu sistema de downloads “pague quanto quiser”. Mas pego como exemplo a VIZ Media, distribuidora estadunidense de Naruto. Naruto, como se bem sabe, é o maior fenômeno comercial dentro da animação japonesa desde Dragonball. Tem Naruto no nome, vende. Só que, por ser uma marca tão benquista financeiramente, Naruto é, talvez, a animação japonesa que mais possui fansubbers – fãs que produzem legendas . E talvez o maior representante desses fansubbers seja o DatteBayo.com, que simplesmente legendava os episódios do Naruto cerca de uma semana depois da exibição japonesa e os colocava para download. Em outras palavras, era impossível uma competição legal da VIZ Media com o DatteBayo.com, já que as temporadas de Naruto para download estavam bem à frente das exibidas na TV norte-americana.

E o que fez a VIZ? Disponibilizou, via streaming e semanalmente, os novos episódios de Naruto, também uma semana depois da exibição da versão japonesa. E em alta definição. Antes mesmo de ir ao ar na TV, os episódios podiam ser vistos na internet, de graça. A equipe americana de fansubbers do DatteBayo.com simplesmente se retirou do mercado de legendagem, pelo menos no que diz respeito a Naruto, no primeiro dia de exibição dos episódios via streaming. Diziam-se fãs e, como tais, apoiavam uma decisão legal e gratuita desse porte. A decisão da VIZ não é perfeita, já que apenas moradores dos EUA tem acesso aos episódios, o que não acabou com o DatteBayo.com completamente em todos os países. Mas é um começo – e um começo bem acertado.
Não é preciso ir contra a pirataria necessariamente. É preciso enxergar o que faz da pirataria sucesso comercial e utilizar esse exato conhecimento para também obtê-lo. Dessa forma, as empresas de entretenimento em geral não precisam abandonar seu negócio e adaptam-se às novas formas de comunicação. E, convenhamos, é mais barato e rápido do que imensos e milionários processos contra um garoto no quarto da sua casa que sabe traduzir japonês.
